Resenha: Negrinha de Monteiro Lobato

Monteiro Lobato era racista?

Ainda me lembro do dia em que uma amiga da família nos presenteou (eu e minha irmã) com uma coleção de livros do Monteiro Lobato. Eram de capa dura, grandes e pesados, repletos de ilustrações que nos faziam viajar pelas histórias por horas a fio.

Crescemos lendo Monteiro Lobato, um autor que escreveu para crianças de uma forma que nos encantava ao mesmo tempo em que ensinava a ler de verdade; pois apesar da linguagem infantil, as histórias (Reinações de Narizinho, Memórias da Emília, Caçadas de Pedrinho, O minotauro, O Saci, Viagem ao Céu… ) não eram simples – no sentido de não exigir raciocínio como vejo muito hoje tanto na literatura infantil, como nos desenhos animados -, eram convidativas ao mergulho em um rio de palavras e frases… parágrafos e mais parágrafos que nos levava até ao fundo cristalino da nossa própria imaginação.

A pergunta que fica para quem teve sua infância marcada pelo Sítio do Picapau Amarelo é: Será o que eu acharia daquelas histórias hoje? Algo que eu pretendo responder em breve (um breve de mineiro rs). Porém, antes, quero muito conhecer a literatura adulta do Monteiro Lobato. E é essa vontade que me trouxe até Negrinha.

“Preta? Não; fusca, mulatinha escura, de cabelos ruços e olhos assustados.”

Negrinha, publicado em 1920 em um livro de contos do autor, retrata o período histórico brasileiro pós-abolição dos escravos. Uma criada preta dá a luz a uma menina e falece tempos depois. A menina cresce ali, pelos cantos sem carinhos ou cuidados, na casa de uma senhora bem rígida. A coitada ao longo do conto sofre mais do que muitos de nós juntos em toda a vida, porém como só conhecia aquela realidade, achava tudo aquilo normal.

Normal, até que chegam naquela casa algumas meninas brancas, sobrinhas da Senhora, que trazem consigo um objeto muito estranho nunca visto pela menina sem nome ou a Negrinha: uma boneca. 

Esse conto é uma das coisas mais tristes que já li, talvez pela sua própria brevidade – em não nos dar um espaço para respirar antes do próximo impacto. Uma ficção quase impossível de se ter como tal, já que ao ler, você sabe que muito provavelmente um ou mais episódios aconteceram de fato no Brasil naquela época. Uma narrativa incômoda e marcante, e não só pelo enredo e a personagem principal, mas pela forma como o autor a escreveu.

Nesse primeiro contato com sua literatura não infantil, senti Lobato frio e sarcástico, distante dos acontecimentos narrados por ele mesmo, mas será? Creio que não. Sua coragem de colocar no papel a situação degradante dos negros no Brasil mesmo após a abolição, revelam um coração se não comovido, ao menos indignado.

Há quem diga que o Monteiro Lobato era racista por causa de sua personagem, a preta Tia Nastácia e outros, mas eu particularmente nunca tive essa percepção, e Negrinha só me esclareceu, o quanto essas acusações são infundadas. O que o autor faz em sua obra é tecer tão bem ficção e realidade, fantasia e realismo, o social, ideal e, o real, que pode ser mal interpretado. Mas não importa, não perderá pelos críticos a sua força.

editado em 25/06/2019

KELLY OLIVEIRA BA


+info: Título: Negrinha | Autor: Monteiro Lobato (1882-1948) | Publicado originalmente em 1920 | Edição lida: Os cem melhores contos brasileiros do século; Rio de Janeiro: Objetiva, 2001

Classificação: 4,5

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