EU LI | Tremor, de Jonathan Franzen

Compreender o que chamo de caos do mundo contemporâneo, discernir a realidade do que estamos vivendo (em sociedade). Acho importante ler sobre o que as pessoas estão pensando sobre o aqui e o agora. Tudo hoje parece tão – como conceituou Bauman – líquido, relativo, rápido e imediato… que, está cada vez mais difícil assimilar a realidade de fato. Nesse intuito, tenho percebido a força da literatura de ficção em expressar através do imaginário (e absurdo as vezes) o que há de mais real no nosso mundo. É assim que cheguei a leitura do livro de hoje.

Conheci a obra do americano Jonathan Franzen (1959- ) no ano passado, com o seu romance “Liberdade” (2010), que me causou uma forte impressão, principalmente por sua afiada descrição e crítica à sociedade norte americana contemporânea. Desde então tenho pesquisado sobre suas obras e decidi fazer a leitura das mesmas em ordem cronológica.

Tremor foi publicado em 1992, é o segundo livro da carreira do autor. Ao que parece ser comum em suas obras, traz no centro do seu enredo uma família americana de classe média que aparentemente é perfeita ou sem problemas. Esposa, marido e dois filhos: Melaine, Bob, Louis e Eileen. O protagonista é Louis Holland, que apesar de ficarmos conhecendo no decorrer do livro várias fases de sua vida, a maior parte da história vai ocorrer quando ele tem 23 anos. Louis é radialista, acabou de se instalar em Somerville, em Boston, para trabalhar numa empresa de rádio de pouca audiência e quase falida. Sua irmã, que está para concluir o MBA, mora na vizinhança, e por isso ele decide visita-la. No apartamento de Eileen, após um diálogo esquisitíssimo entre eles e Peter, o namorado dela, Louis atende um telefonema inusitado de sua suposta avó “Rita Kernaghan” da qual não se lembrava muito e acaba marcando um encontro com ela. No dia marcado, acontece um terremoto em Boston e Rita morre, deixando uma herança de 22 milhões de dólares para a mãe de Louis.

Durante o desenrolar da história, acontece vários terremotos, o que vamos aos poucos entendendo que não são causados pela simples força da natureza, mas induzidos pelo crime ambiental de uma grande empresa, que está injetando seus resíduos químicos diretamente no solo… e assim também conhecemos a personagem – incrivelmente desenvolvida por Franzen – Renée, uma sismóloga, estudante de Harvard.

É um livro grande, 552 páginas com muitos acontecimentos em volta dessa sinopse, alguns interessantes, outros nem tanto. Todavia, para mim o que há de melhor nesse livro, apesar da trama ser muito boa e surpreendente em vários momentos, são os personagens. A construção de personagem do Franzen em geral, ou seja, tanto os protagonistas como o restante, é sensacional. Louis e Renée são personagens muito antipáticos, não gostei deles como pessoas, como pessoas que eu gostaria de conhecer em nenhum momento, mas foram tão bem desenvolvidos que a lembrança que ficou depois da leitura foi de personalidades e temperamentos bem demarcados. Em ambos, separadamente e de forma diferente, o autor traça a solidão contemporânea e a crise existencial enfrentada por qualquer jovem da nossa época (adultos cada vez mais perdidos de sim mesmos).

Os grandes temas que o autor trabalhou nesse livro foram três: problemas familiares e amorosos, meio ambiente e o aborto. Mas em paralelo tocou em vários outros: fanatismo religioso, feminismo, ganância, solidão, adoção, política (esquerda, conservadores e liberais) … Tudo em um tom crítico, irônico e cômico. O autor também, faz uso de uma dualidade e contradição o tempo todo, de forma, que é difícil até do leitor (pelo menos eu tive dificuldade) encontrar a verdadeira opinião de Franzen sobre esses temas, pois ele coloca os dois lados da moeda o tempo todo e sempre com argumentos muito bem construídos para os dois lados.

Me parece, como posso dizer de Liberdade também, um livro que provoca o leitor a pensar, pensar sobre os grandes temas, que de tão polêmicos as vezes ficamos com preguiça… Ele não dá respostas, ele me parece fazer as perguntas. Há uma complexidade de camadas nos livros de Franzen, mostrando-nos o tempo todo como podemos estar errados em elaborar respostas rápidas e fáceis para os problemas do ocidente. Talvez essa seja inclusive, uma resistência à contemporaneidade não sei: a necessidade que ele encontra de escrever livros tão longos. Encarando seriamente as mais de 500 páginas, somos obrigados em algum momento parar para refletir por nós mesmos, naquilo que ele está falando. E mesmo escrito há 26 anos atrás, Tremor continua atual. Afinal, as fragilidades da vida em sociedade não mudaram quase nada, continuamos a (e precisamos) discutir os mesmos assuntos.

Falando um pouco da narrativa. Eis um autor prolixo, seus parágrafos são enormes e seus capítulos infindáveis. Além disso ele adora descrever coisas que a maioria das pessoas não estão querendo saber detalhes, tais como aspectos históricos e científicos dos mais variados – principalmente relacionados ao meio ambiente. Tudo isso forma um combo para que seus livros sejam chatos e eu entendo quem tem essa opinião, mas ao contrário, eu gosto e gosto muito; ou pelo menos tenho uma relação de amor e ódio com seus livros. Acontece que ele tem uma habilidade de capturar o cheiro, a cor e o gosto do contemporâneo, desenhando a realidade de hoje tal como ela é, horrível as vezes. É isso que acho extraordinário em seus livros.

E, na ausência de novos tremores, o medo da morte e do sofrimento físico havia se recolhido ao seu devido lugar, bem lá no fundo da consciência das pessoas.

Por algumas semanas, depois que as últimas equipes de repórteres de televisão arrumaram as malas e foram embora de Boston, dava para sentir no ar a decepção da cidade com a terra. Claro que ninguém estava ansioso para ser pessoalmente esmagado por vigas em queda nem para ver seus bens pegarem fogo, mas durante alguns dias, na primavera, a Natureza havia mexido com as expectativas da cidade, e as pessoas rapidamente adquirido apetites velados por imagens televisionadas de corpos debaixo de folhas de polietileno, pela sensação de montanha-russa de ser arremessado de um lado para o outro da sala, por uma experiência californiana, por números de vulto. Cem mortos teria sido algo realmente digno de nota. Mil mortos: histórico. Mas a terra havia voltado atrás em suas promessas, recusando-se mudamente a reduzir edifícios a impressionantes e fotogênicas pilhas de escombros; e a contagem de mortos nunca chegou do rés do chão.


+ info: Tremor (no original Strong Motion) | Autor: Jonathan Franzen (1959- ) | Publicado a primeira vez em: 1992 | São Paulo: Companhia das Letras, 2012 | 552 páginas

Classificação: 4

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