Primavera

O ano iniciou-se com uma aventura inexplicável. Foi me dito que seria o momento em que viveria uma nova estação. Que viveria a Primavera. Confesso que me empolguei, cheguei mesmo a chorar de tanta emoção. Mal sabia eu o que me esperava. Por um momento, esqueci-me completamente que ainda vivia um intenso Inverno de memórias trágicas. Mentiras, palavras malditas… que me paralisavam entre as paredes desalinhadas de gelo e medo.

O meu coração assemelhava-se mais a um pavimento acimentado coberto de neve e cinzas do que a um jardim, qualquer semente lançada ali jamais chegaria a tocar o solo, ficavam apenas no campo das ideias, no intelectual. Ah, eu tinha conhecimento de tanta verdade universal. Meu Deus, como me senti hipócrita! Cheguei mesmo a duvidar se estaria no caminho certo. Perguntei-me inúmeras vezes se estaria chegando mesmo a tão falada Primavera, pois eu não a conseguia ver, muito menos imaginar.

O tempo passava e trazia consigo folhas secas de memórias dolorosas que eu me recusava a varrer da minha vida, eu me recusava a abrir mão delas. Era tão mais confortável deixá-las na minha mão do que entregá-las a Quem as queria ressignificar. Era tão mais fácil calar-me de erros cometidos do que confessá-los e começar a caminhar para uma nova mentalidade, um renovo de entendimento, uma transformação!

Verdades começaram a ser estabelecidas, e eu comecei a ver luz onde antes eram só eu, perdida dentro do meu próprio coração. Uma vez ou outra, eu começava a ver pequenas sementes conseguirem atravessar o gelo e tocarem aquele solo duro. Convicções puras e sinceras começaram a surgir e eu pude perceber que não vinham de mim mesma, mas de Quem me amou desde o princípio. De Quem me viu ainda na barriga da minha mãe e esperava ansiosamente a minha chegada, que Ele mesmo preparava com amor e cuidado.

À medida que ia caminhando, eu atravessei paisagens e lugares diferentes no meu coração. E, aos poucos, os meus passos deixavam marcas de quem não se arrependia – nem um segundo – de ter decidido caminhar a vida inteira com o Autor da Vida. Quando me dei conta que Nele eu sempre tive um Pai, que eu era totalmente perdoada. E ainda que, por alguns momentos, eu me sentisse sozinha, onde não conseguiria ouvir a Sua voz ou vê-Lo… a  verdade é que nunca estaria sozinha. Mesmo em silêncio Ele continuará a caminhar comigo, mostrando-me o caminho a seguir. Pois no turbilhão que a minha alma, por vezes vive, ao ponto de não conseguir dormir e travar duras batalhas… a Sua presença me basta. Ainda que Ele não diga nada.

A Primavera estava se aproximando aos poucos, à medida que o meu coração ia florescendo. À medida que se tornava um jardim e deixava de ser um coração acimentado. Agora ele estava repleto de cores e flores – Deus sabe que agora não me canso de desenhá-las e pintá-las…

No fundo, a Primavera estava a nascer no meu coração. Mas só prestei atenção à sua chegada quando o jardim estava, finalmente, estabelecido: a convicção do que é eterno. A convicção de quem Ele é e de quem eu sou Nele.

“All the roads I’ve been before, same mistakes always got me shakin’.  And all the signs I once ignored, in my denial I didn´t want to face them! I can see clearly now the rain is gone (…) Gone are the dark now, the Dawn has come.” – Grace Vanderwaal

ANA MARGARIDA.

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