Resenha livro: Simplesmente Crente de Michael Horton

Sou aterrorizado pelo tédio. Até mais do que pelo fracasso. Enfrentar mais um dia, com chamados corriqueiros para pessoas comuns à nossa volta é muito mais difícil do que correr atrás dos sonhos que projetei para a grande história da minha vida.

Toda vez que penso na minha vida cristã, na minha jornada com Cristo, na minha experiência com uma igreja local, me lembro desse livro. Simplesmente crente se tornou um símbolo na minha vida, a própria capa está gravada na minha mente: “por uma vida cristã comum”. Um símbolo do que significa ser um crente comum, o que na verdade todos os cristãos deveriam ser. Um símbolo que me lembra que a vida cristã de verdade acontece na rotina do dia a dia e não nos grandes eventos, ou que ela não é o que aparece nas notícias do mundo gospel. Se você é um crente, tenho certeza que já está me entendendo.

Quando o li pela primeira vez em 2017, foi impactante. Michael Horton lançava sobre mim tantas óbvias verdades, que praticamente a cada página lida parava e ficava olhando para o nada. Foi mesmo necessário reler esse ano (2019) para entender melhor e talvez eu o faça pela terceira vez.

Publicado originalmente em 2014, e traduzido e publicado no Brasil pela Editora Fiel em 2016. Segundo o autor a obra não é primeiramente uma crítica, mas é sim rss! Simplesmente Crente é uma baita crítica ao radicalismo, ao exagero, a busca pela grandeza no mundo evangélico, para citar alguns pontos. Enfatizando: o livro é uma crítica! E por isso também é dedicado a todos os crentes, uma espécie de convite para abraçarmos o ordinário, o corriqueiro da vida cristã que afinal, segundo Horton, é a atitude mais corajosa e radical que podemos ter.

O livro é dividido em duas partes: Na primeira “RADICAL E INQUIETO” o autor aponta os problemas e faz suas críticas e denúncias aos crentes e ao próprio mundo contemporâneo. Segundo ele vivemos em um mundo inquieto, em que as pessoas estão sempre atrás do: revolucionário, transformador, impactante, máximo, extremo, alternativo, inovador, notícia explosiva, mudança de vida etc etc; o que tem gerado uma aversão – em decorrência dessa inquietação – ao comum, corriqueiro, simples… em outras palavras: está tudo complicado demais. Na segunda parte “ORDINÁRIO E CONTENTE” ele faz suas sugestões para solução dos problemas, como por exemplo sua longa meditação sobre o que é contentamento e como vivê-lo na prática. Coisas assim, que qualquer cristão já sabe mas que precisa relembrar de tempo e tempo.

Alguns pontos que gostaria de destacar são:
1. O levantamento histórico que ele faz do radicalismo na Igreja, desde do clube santo dos irmãos Wesley até a onda do movimento reformado calvinista que ele notava provavelmente enquanto estava escrevendo o livro e que nós estamos presenciando atualmente no Brasil. Como ouvia sempre uma pessoa dizer: o problema são os excessos. E como as pessoas erram nisso.
2. Achei importante essas afirmações: A cultura tem verdadeira adoração pela juventude e isso há muito chegou na igreja. Segundo Horton, a preocupação com os jovens se desenvolveu de um “culto de jovens” para uma igreja só de jovens. Não se busca mais maturidade bíblica, parece que todos querem continuar a ser crianças e mimadas.
3. O que ele aborda no capítulo quatro, em resumo: estamos viciados em novidade perpétua e isso não é bom.
4. A abordagem que ele fez sobre o assunto da ambição. Nunca tinha visto nada parecido. A ambição afinal é um vício e não uma virtude… como isso é confrontador.
5. O contentamento como um lugar de descanso.
6. O próprio título do capítulo dez diz o que quero expressar: “Pare de sonhar e ame o próximo”.

Mas o livro não é só flores. Eis o porquê gosto tanto dele, mas não o considero um dos meus favoritos. O autor se empolga em vários pontos do livro, isso é, ele sai do assunto para divagar sobre outras coisas e se alonga nelas; e usou também o livro para defender seu calvinismo, o que até aí tudo bem, muitos autores dessa linha teológica fazem o mesmo, mas ele usou também das páginas para defender pontos doutrinários bem polêmicos e que não tem nada a ver com a questão central, como por exemplo: o batismo de crianças; o que na minha opinião quaseee acaba estragando o livro, eu disse quase.

Outra coisa que não gostei também foi a quantidade de páginas, a dedicação e principalmente o tom que ele fez uso para criticar o Charles Finney. Vale dizer que apesar de eu ter a teologia sistemática do Finney na estante, não a li completamente e ainda não estudei a fundo a vida dessa figura da história da igreja, porém, não achei legal a forma que o autor criticou o Finney.

É o tipo do livro que eu recomendo muito, mas com ressalvas. Por isso uma recomendação difícil e por isso esse livro está aparecendo por aqui somente agora. Se você já leu Simplesmente Crente por favor me conta o que achou.

Até mais^^

KELLY OLIVEIRA BA.


+info: SIMPLESMENTE CRENTE: POR UMA VIDA CRISTÃ COMUM | Autor: Michael Horton | Título Original: Ordinary: Sustainable Faith in a radical restless world, 2014 | Tradução: Elizabeth Gomes| Editora Fiel, 2016| 313 páginas

Classificação: 4 | Compre: Amazon | Skoob: aqui

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