Resenha: O Diário de Anne Frank

Não acredito que a guerra seja apenas obra de políticos e capitalistas. Ah, não, o homem comum é igualmente culpado; caso contrário, os povos e as nações teriam se rebelado há muito tempo! Há uma necessidade destrutiva nas pessoas, a necessidade de demonstrar fúria, de assassinar e matar. E até que toda a humanidade, sem exceção, passe por uma metamorfose, as guerras continuarão a ser declaradas, e tudo que foi cuidadosamente construído, cultivado e criado será cortado e destruído, só para começar outra vez!

Finalmente eu li O Diário de Anne Frank um livro que tinha aquela sensação “que todo mundo tinha lido menos eu”, um livro que estava a meia década na minha estante, um dos tais encalhados. Creio que escolhi o momento certo.

Faz pelo menos três anos que tenho me dedicado ao assunto da segunda guerra e os relatos mais pessoais daquela época, como: diários, cartas, memórias…; são os que mais me interessam. Precisava mesmo passar por Anne Frank. Para quem por acaso desconhece “O diário de Anne Frank”, o que acho difícil, se trata do depoimento, do diário pessoal, de uma menina judia entre junho de 1942 a agosto de 1944, período no qual ela com mais 7 pessoas, ficaram escondidas no sótão de uma casa em Amsterdã por conta da invasão nazista na Holanda; sendo infelizmente encontrados e presos pela Gestapo em 1944. Todos eles foram parar em campos de concentração. Anne e sua irmã Margot, foram transportadas para Auschwitz no fim de outubro daquele ano e levadas para Bergen-Belsen, onde morreram e provavelmente foram enterradas em valas comuns.

Mas falando da obra em si, acho que na minha experiência com a literatura nunca encontrei uma narrativa que fosse tão real. Para mim a crueza é a força da obra, o que a faz ser lida no mundo todo e o será por muitas gerações. Além de muito comovente, pois sabemos que estamos lendo, conhecendo intimamente, uma vítima fatal do nazismo.

Acho importante dizer que este não é um livro fácil de ler. Não pela linguagem, mas porque ele é um livro que cresce: começa pequeno quase fútil e termina grande um clássico. E isso se dá pelo próprio desenvolvimento de Anne. Ela começa a escrever com 13 anos enquanto estava livre e mesmo depois de estar escondida com a família e outras pessoas, ela era só uma adolescente mimada. Mas até marquei, a partir da página 150 (edição da Record, 2014) ou dos registros de outubro de 1943, acontece uma virada na narrativa, a coisa vai ficando mais interessante e isso porque infelizmente a tristeza invade a alma da menina, que fica mais melancólica e reflexiva.

Sobre o conteúdo do diário, Anne escrevia sobre sua vida e das outras pessoas dentro do Anexo, sobre a rotina, sobre seus sentimentos e tudo sem reservas. Ela tinha um péssimo relacionamento com a mãe e não poupava palavras para expressar isso. Ela descreve o tempo todo o clima tenso dentro do esconderijo; como 8 pessoas com medo, sofrendo todo tipo de privação reagiam umas com as outras. Ler tudo isso pode ser chato para alguns e muito interessante para outros como é meu caso. Me chamou muito a atenção e vi outras pessoas na internet comentando justamente sobre isso, como mesmo com toda tensão da guerra, muitas coisas acontecendo… aquelas pessoas caíram num tédio enlouquecedor.

As brigas, o egoísmo como também todo empenho daquelas pessoas para comemorar os aniversários e os dias festivos, a balança entre a bondade e a maldade… tudo isso dá muito o que pensar sobre a natureza humana. Mesmo que só tenhamos a percepção da Anne sobre tudo. O que dizer por exemplo da conduta de Dussel (pseudônimo usado por Anne para Fritz Pfeffer), que entrou no esconderijo tardiamente, no auge da guerra, quando a família de Anne e os outros foram movidos por compaixão na tentativa de salvar mais um judeu? Tenho que dizer que eu fiquei pasma com a conduta desse sujeito, do grau de egoísmo e ingratidão com seus benfeitores – ainda que não exista um relato pessoal dele para confrontar com o que foi registrado ao seu respeito.

Achei interessante também alguns pensamentos da menina sobre Deus e a religião. Anne me pareceu ter uma fé fragmentada, algo muito subjetivo e fraco; perceber isso também me comoveu bastante… ela buscava por consolo o tempo todo sem conseguir encontrá-lo.

Há muito que eu gostaria ainda de comentar, mas já finalizando e poupando vocês de um post imenso: ler esse diário me fez sentir uma tristeza como nunca pelos judeus, por tudo o que aconteceu na segunda guerra. Os judeus eram pessoas comuns e foram covardemente perseguidos e assassinados. Tudo o que aconteceu na segunda guerra foi lamentável e… a única coisa que podemos fazer é não deixar toda essa tragédia cair no esquecimento. É necessário lembrar.

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PS. Quanto ao quote que escolhi para iniciar esse texto de impressões, preciso comentar que a única “metamorfose” que acredito que toda humanidade vá passar para daí mudar as coisas é a segunda vinda de Cristo, quando haverá “novos céus e nova terra…”. Do contrário, o ciclo de destruição continuará.


+INFO:  O DIÁRIO DE ANNE FRANK | Autor: Anne Frank (1929-1945)| Editora Record, 2014 | 349 páginas

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14 comentários em “Resenha: O Diário de Anne Frank

  1. Por opção individual nunca li este livro, que me iria torturar e sabendo eu que no fim ela nem se salvou. Mesmo em Amesterdão recusei ir visitar a casa de Anne Frank. Estou a ler em ebook O arquipélago Gulag de Soljenitsin, que eu sabia que seria difícil, mas ao menos o escritor escapou para narrar, mas leio uns excertos uns dias e depois tiro folga de umas semanas, é-me demasiado duro ler de seguida.

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    1. Carlos, te entendo. Eu mesma fiquei com o livro na estante uns cinco anos tomando poeira, evitando pegar porque sabia que seria difícil. Estou tomada pela comoção até hoje. Não que o livro tenha descrições de horrores, o que temos no diário é uma mente como de qualquer adolescente… só que vivenciando o caos. O que é difícil é encarar a última página, o posfácio e ter ciência que nem enterrada Anne foi, mas jogada numa vala comum. Que todos os seus sonhos e projetos foram destruídos sem nenhuma chance.

      Tenho interesse pelo O arquipélago Gulag também, masss tenho que ver o momento certo.

      (Gostei da sua lógica: “ao menos o escritor escapou”, faz sentido)

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  2. Nunca li esse livro e acho que o motivo também foi um pouco de receio diante de uma história com um final tão triste. Ele está na minha lista de leitura, assim como Arquipélago Gulag que vocês citaram acima, mas acho que ainda não estou preparados para ler agora.

    Curtido por 2 pessoas

  3. “O Diário de Anne Frank” é um dos meus livros favoritos. É impressionante como no fim da leitura a gente se sente próximo dela. Outro livro interessante que eu recomendo é “Os Últimos Sete Meses de Anne Frank”, de Willy Lindwer. São relatos de algumas mulheres judias que em algum momento suas vidas se cruzaram co a de Anne. É bem emocionante e todas sobreviveram ao Holocausto. Outro livro que recomendo é “É Isto Um Homem”, do Primo Levi que narra sua vivência em Auschwitz. Uma leitura forte, mas necessária.

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    1. Olá Rubens! Essa é mesmo a sensação que eu tive: de conhecê-la. Obrigada pela dica, muita gente tem me falado aqui na internet, sobre esse outro livro, estou bastante instigada para ler.

      Tenho esse do Primo Levi na estante sem ler a um tempão. Vou resolver isso.

      Obrigada pelas dicas e comentário!

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    1. Gostei muito do livro, mas como eu disse ele “começa morno”, não vá com muitas expectativas, tenha em mente que é o diário de uma adolescente bem egocêntrica.

      Quanto a ser um livro triste, apesar de ter ficado mal durante toda a leitura, só o posfácio que foi extremamente difícil para mim (nem queria ler na verdade).

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  4. Que quote interessante… essa reflexão é bem profunda para essa idade que ela tinha.

    Ainda não li, embora o livro esteja em minha lista há um bom tempo. Já conhecia há um tempo, mas senti vontade de ler depois da leitura de “A culpa é das estrelas”, porque determinados personagens visitam o anexo (que hoje é um museu). Gostei bastante de ler sua resenha e fiquei com mais vontade de ler (se a Kelly gostou, deve ser bom mesmo!).

    😘

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    1. Olá Dafne, desculpa pela demora para responder… ando meio lenta nessa quarentena para fazer tudo.

      Olha, pelo pouco que conheço de você como leitora, acho que você vá gostar muito desse livro. Como disse na resenha, este é um livro que cresce ao longo das páginas.

      Eu assisti esse filme, não gostei muito confesso, mas essa parte da visita ao anexo é realmente interessante.

      Obrigada pelas palavras doces!

      Bj.

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  5. Este livro é maravilhoso!
    Chama a atenção o fato de Anne, tão nova, ter monstruosa fluência na escrita, algo que se justifica pelo seu hábito de leitura (narrado por ela mesma no livro); chama também a atenção a percepção geopolítica da garotinha, que mesmo confinada e tendo como referência apenas os relatos das rádios locais, empreendeu excelentes descrições do cenário da guerra.
    Excelente escolha, excelente resenha! Parabéns!

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