Resenha livro: Minha Vida de Anton Tchekhov

Minha Vida publicada em 1896, é uma das poucas narrativas longas do Tchekhov que escreveu principalmente contos.

É impossível ler a obra do autor e não se interessar pela história da Rússia. Dá para sentir seu contato real com as várias camadas da sociedade da época. Suas descrições, das pessoas, dos lugares, da sociedade, seu próprio ponto de vista sobre a vida expressado através de seus melancólicos personagens é diferente de tudo que eu já tinha lido até considerando outros autores russos.

Narrado em primeira pessoa, em Minha Vida conhecemos a história de Missail Póloznev, um jovem nobre, filho de arquiteto que não se estabiliza em emprego nenhum. Missail considera o serviço de escritório (burocrático) vazio e longe de ser um trabalho “intelectual” de fato, o que é defendido por seu pai repetidamente em longas brigas.

O personagem acaba rompendo as relações com o pai e se torna um simples pintor de telhado mesmo com todos os esforços das pessoas à sua volta incluindo sua irmã para que atendesse às expectativas e vivesse conforme sua família e classe social.

O jovem Missail é cheio de ideais, questiona tudo e todos e à princípio, no alto da sua “rebeldia” não só alguns personagens como possivelmente o próprio leitor chega a admirá-lo como alguém que teve coragem de romper, correr atrás e viver como queria.

Mas pelo que já tinha constatado nos contos que li do autor, Tchekhov era um pessimista quanto a vida debaixo do sol. No decorrer da narrativa, logo acompanhamos as consequências das escolhas daquele jovem e suas amargas desilusões.

A escrita do autor é muito sensível nessa novela. Ele retrata profundamente as misérias humanas, a depravação generalizada dos homens. Em suas experiências Missail encontra a desonestidade, mentiras, enganos, toda forma de maldades entre os pobres e entre os ricos. Esse é um ponto de reflexão importantíssimo que gostei muito. No livro tanto o ignorante como o culto, o rico e o pobre, os homens e as mulheres são depravados, mesquinhos… pois afinal, não há diferença “todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só.” [1]

Todavia, o autor também é sensível para falar da arte e do amor. Há trechos incríveis nessa obra sobre a experiência humana com a arte.

Quem estiver farto da imundície, dos interesses pequenos e mesquinhos, quem estiver indignado, quem tiver sido ofendido, esse poderá encontrar tranquilidade e satisfação somente no maravilhoso. (p.109)

E quando Missail se apaixona por Macha, uma nobre, o texto ganha muita beleza. É nesse ponto que o leitor se não tiver sido ainda, é totalmente envolvido.

Minha Vida é uma obra muito próxima à realidade. Ali está o cotidiano, a vida comum. Em seu íntimo o protagonista se faz muitas perguntas que já fizemos ou iremos fazer enquanto jovens e amadurecendo, passa por desilusões inevitáveis que todos nesse “vale de lágrimas” vamos sofrer em algum momento.

Infelizmente, os problemas e os pensamentos dos seres vivos estão longe de ser tão significativos quanto as suas amarguras. (p.76)

Era impossível convencê-la de que ninguém se importava com pessoas tão insignificantes e sem interesse como eu e ela. (p.120)

Cada um deve lembrar-se de qual deve ser sua conduta e todo aquele que, por orgulho, isso não quiser entender, para ele haverá um vale de lágrimas. (p.126)

[1] Citação de Romanos 3:12


+INFO
Livro: Minha Vida, 1896 | Autor: Anton Pavlovitch Tchekhov (1860-1904) |
Editora: Nova Alexandria, 2004 | Páginas: 149

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Minha Avaliação: 5/5

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4 Comments

    1. Olá Carlos! Foi mesmo esse comentário que li sobre o autor “que ele é ótimo contista e não tão bom em narrativas longas”. Acontece que ainda não li muitos contos dele, e os que eu li são dos mais longos. Por ora, estou encantada e na expectativa de conhecer os curtos tão elogiados.

      Se a narrativa de Minha Vida não é considerada tão boa deve ser que ficarei deslumbrada com o resto, porque gostei muito de Minha Vida.

      Abs.

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