Tormenta de Thaís Oyama #72

Apesar do evidente desprezo da autora pelo governo e a figura do PR, repassar todos esses acontecimentos do primeiro ano do governo Bolsonaro e, relembrar alguns fatos da jornada do então deputado de um partido nanico que “ninguém levava à sério” até o Palácio da Alvorada, é no mínimo interessante.

Para quem acompanhou a política nesses últimos anos essa obra não revelará grandes “segredos” como sugerido no subtítulo, porém alguns fatos e detalhes dos bastidores que já não se comenta tanto, quando observados na sequência de eventos proposta pela autora, podem ganhar novo sentido e ajudar a quem se interessa, compreender melhor esse quebra-cabeça do caos que é a política brasileira.

Os Generais

Como por exemplo o “dedo” do general Villas Boas na eleição de Bolsonaro. Segundo a jornalista, havia menos de 24 horas que o PR havia assumido a cadeira presidencial, quando fez a seguinte declaração no Clube do Exército: “General Villas Boas, o que já conversamos morrerá entre nós. O sr. é um dos responsáveis por eu estar aqui.” Ao que exatamente se referia, só os dois envolvidos para saber, entretanto quem não se lembra da tensão no começo de 2018 quando o TRF da 4ª Região confirmou a sentença de Lula e manteve a condenação do petista, ao passo que os advogados do mesmo entraram com um pedido no STF de harbeas corpus preventivo. Se o tribunal concedesse a medida, Lula – já pré-candidato – não apenas permaneceria em liberdade como poderia (provavelmente seria negado, mas poderia…) requerer o registro de sua candidatura. Nas ruas e nas redes sociais aumentava o apelo de muitas pessoas pela intervenção militar, o país já se encontrava em tensa polarização. Em 3 de abril de 2018 o general Villas Boas usou sua conta no twitter para publicar uma mensagem à nação brasileira e interpretada por muitos como um claro recado ao STF. O resultado disso tudo, foi que em 5 de abril, por seis votos a cinco, o STF decidiu negar o pedido do HC, seguindo para o próximo evento que foi aquela dramática prisão do Lula – o que hoje ironicamente é um passado muito distante já que o mesmo se encontra solto e até viajando pelo exterior.

Ainda sobre os generais, Augusto Heleno para Thaís Oyama tem “pouca paciência para protocolos e um prazer quase juvenil em escandalizar” (Será o que o general achou dessa definição?). Brincadeiras à parte, o que o livro deixa no ar é a possível tensão que Bolsonaro enfrenta ao lidar com a polarização também da ala militar.

Redes Sociais

Outro ponto que merece destaque, são as inúmeras menções às redes sociais especialmente o Twitter para explicar: origem, desenvolvimento e desfecho de várias “crises”. Sem dúvida uma novidade desse governo é a interação direta com o povo através das redes. Há quem tente negar a influência das redes sociais nas ações dos chefes do poder e muitas vezes o que acontece no dia a dia das instituições, mas achei curioso lendo esse livro como é difícil descrever a realidade hoje sem mencionar o que se passa nas redes. Não tenho dúvida que a tendência dessa influência é crescer nos próximos anos, exceto é claro, se ocorrer algum tipo de controle ou censura.

Esse fator, que pode-se chamar de grande fenômeno das redes sociais também contribui sem dúvida: 1- para a sensação que as eleições nunca terminaram, pois nas redes é difícil determinar a pauta da vez e, a política no Brasil permanece como O assunto, sem previsão de mudança; 2 – a polarização e portanto a dificuldade da pacificação do país, já que por trás das telas e sem o contato físico de fato com as pessoas a tendência é o discurso ser cada vez mais agressivo; 3 – para o surgimento de oportunistas: alguém tem dúvida que tanto pessoas de direita como de esquerda estão faturando muito dinheiro nas redes com a situação política brasileira? E nem me refiro a bolsa de valores aqui…

Distanciamento da realidade

A leitura desse livro deixou muito claro para mim o distanciamento que parte da grande imprensa se encontra da realidade do povão brasileiro. Em vários trechos a autora parece tentar mostrar para o leitor o quão desqualificado Bolsonaro é para o cargo de presidente da república, e OK é uma opinião legítima, só que ela faz isso descrevendo alguns comportamentos e contando coisas do passado de Bolsonaro parecendo não ter noção alguma ao que tudo indica, que são exatamente essas coisas ou esse jeito dele que faz com que os seus apoiadores se identifiquem com ele. Cito: 1 – a menção de que por muitos anos na Câmara dos Deputados, Bolsonaro por ser de um partido pequeno e sem relevância não tinha um banheiro privativo em seu gabinete; 2 – a ênfase que a autora dá para a preferência de Bolsonaro e dos filhos por restaurantes “self-service”; etc. Note: Quantas pessoas no Brasil utilizam banheiros privativos até mesmo em suas casas? Quantos brasileiros almoçam diariamente nesse modelo de restaurante?

É difícil compreender a escolha da jornalista por tais detalhes para cumprir com o objetivo mencionado. Se bem que, o público alvo de tal publicação não é o povão que todos sabemos que em geral não é leitor, porém cito isso para mostrar um dos erros que os opositores do governo tem cometido, qual seja: de não avaliar o governo pelos acertos e erros, mas insistir numa crítica cada vez mais pessoal ao PR. Que inclusive é o tom dessa obra.

Tormenta – O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos foi publicado esse ano pela Companhia das Letras, escrito pela jornalista Thaís Oyama repórter, editora e redatora-chefe da revista Veja, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, os jornais Folha de S.Paulo, Estado de S.Paulo e outros.


+INFO: Título: TORMENTA – O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos | Autora: Thaís Oyama | Editora: Companhia das Letras, 2020 | 272 páginas

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6 comentários em “Tormenta de Thaís Oyama #72

  1. Gostei de ver que também lê livros de análise social e política, um género que eu leio sobretudo em formato e-book por considerar que o seus textos são muito vezes datados para ocuparem ao longo do tempo espaço nas prateleiras.
    Gosto inclusive de ler obras vindas de campos ideológicos distintos para criar a minha própria opinião sobre os assuntos, até porque lendo só uma frente ficamos mentalizados por esse lado, já que, raramente, estas obras são isentas, deste modo posso contrabalançar e amadurecer as minhas ideias pessoais.

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    1. Olá Carlos!

      Leio sim, mas nem sempre comento por aqui. Talvez passe a fazer isso mais vezes.
      Me identifico com você: Também gosto de ler esses livros em formato ebook. São raras as vezes que compensa investir num físico desse tipo. E também, como você faço questão de ler livros escritos sob ponto de vista diferentes. O resultado é sempre bom.

      Abs.

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  2. Descanse em paz mídia imparcial…
    Nunca vi tanta briga política, é exatamente como você disse, as eleições nunca terminaram e nem vão terminar… Confesso não ter muita paciência para esses livros que pingam veneno, separei alguns sobre política para ler também, mas espero que não sejam tendenciosos (sério que essa prisioneira da bolha acha que uma pessoa só é qualificada para algo tendo banheiro privativo e desprezando restaurante self-service? Ela perdeu toda a minha simpatia com isso ¬¬’ )

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    1. Que descanse em paz!
      Fiquei curiosa para saber os títulos.
      Resolvi ler o que estão escrevendo sobre esse momento caótico, acredito que o que está nesses livros é exatamente a versão dos fatos que será ensinada para a próxima geração. Muito triste, mas é verdade.

      Esses comentários dela são de amargar.

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    1. Oi Caline! Obrigada 🙂
      Olha, até que esse foi bem escrito, a leitura fluiu bem rápido. Resolvi ler o que estão escrevendo sobre esse momento do Brasil, sabe como funciona né, é exatamente essa versão, a versão que está nos livros agora, que chegará na próxima geração.

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