Resenha: Sempre Vivemos No Castelo, de Shirley Jackson

Nessa quarentena que já dura longos meses alguns leitores vêm relatando dificuldade para ler. Praticamente todos os dias nas redes sociais vejo alguma postagem sobre isso. Algo totalmente compreensível, está mesmo difícil de manter o foco em qualquer atividade. Entretanto, quanto a leitura, esse não é o meu caso. Tenho lido muito nessa quarentena, pois esse é o meu jeito de lidar com as coisas desde sempre.

Como no ano passado, esse ano também os livros de não ficção tem me chamado mais atenção. É só entre um e outro que vou encaixando uma ficção para sobretudo, tentar por alguns momentos me distanciar disso tudo – apesar de saber que a ficção por vezes pode nos aproximar implacavelmente da realidade principalmente sobre nós mesmos… um assunto para outra hora.

É aqui que entrou a Shirley Jackson. Esse foi o meu primeiro contato com a autora e achei curioso que eu tenha começado sem saber, justamente por sua última obra publicada em vida. Shirley Jackson viveu entre 1916 e 1965. Sempre vivemos no castelo foi publicado em 1962.

Esse é um livro dito de terror e mistério – gênero atribuído como principal da autora norte-americana -, para mim porém, está mais para um suspense e sobre isso, é preciso dizer que este é um gênero que eu até gosto, falo do suspense, mas que não leio muito e que na verdade, só o faço quando acho que irá valer muito a pena. Por acaso dessa vez não me decepcionei.

Primeiro pela escrita. Gostei muito da forma como Shirley Jackson escreveu esse romance. Dizendo muito com pouco. Usando frases curtas para dar informações importantes da história: “Todo o resto da minha família morreu”, “O pessoal do vilarejo sempre nos odiou”. Acreditando na capacidade do leitor de entender o que ela queria dizer nas entrelinhas. Uma narrativa que parece lenta, mas que é sutil e viciante.

Segundo pela protagonista e narradora, uma das construções de personagens mais incríveis que já li. A narradora dessa obra é Mary Katherine Blackwood, ou “Merricat”, uma jovem de 18 anos, uma das sobreviventes de um incidente que matou quatro de sete membros da família Blackwood. Certamente estar na cabeça dessa personagem durante o desenrolar de todo o enredo é uma experiência à parte de tudo o mais que essa obra é.

Terceiro, pelos assuntos abordados. O enredo é até previsível, eu descobri o mistério ou quem matou a família Blackwood, bem antes do final. Porém, estou pensando até agora em como a autora tratou a questão da sanidade, a questão da maldade humana, da histeria coletiva, da sociopatia e outras. É um livro a princípio simples, despretensioso, sem aquelas frases de efeito, mas que termina complexo, em um silêncio que poderá ser quebrado somente pelo pensar do leitor.

Quarto e último para não me alongar mais. Algo que me chamou a atenção e me fez gostar ainda mais do livro é na verdade uma ausência. A ausência de romance. É um livro que prenderá qualquer leitor e mesmo aquele que não gostar tanto vai querer saber o final, sem ter uma história de amor mirabolante e tudo o que mais a acompanharia. Tenho que admitir que a Shirley Jackson com todos esses fatores somados a esse último me ganhou como leitora ao menos para mais um livro ou conto.


+INFO: SEMPRE VIVEMOS NO CASTELO | Autora: Shirley Hardie Jackson (1916-1965) | Título Original: We Have Always Lived in the Castle, 1962 | Rio de Janeiro: Suma das Letras, 2017 | 200 páginas

Classificação: 4/5

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6 comentários em “Resenha: Sempre Vivemos No Castelo, de Shirley Jackson

  1. Acho que já faz um bom tempo que não leio um livro de suspense, mas fiquei muito interessada nesse depois da sua resenha. E fiquei surpresa, de forma positiva, porque o enredo não inclui algum romance, já que é isso que você mais encontra por aí rsrs

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  2. Confesso que nunca li nada dela, mas como apresentou este livro fiquei interessado.
    A única dificuldade que tive para leitura durante a quarentena foi mesmo de tempo disponível, embora estivesse em teletrabalho, a verdade é que quase não tive tempo livre para ler… mas ocupei todos os espaços possíveis e quase consegui manter o ritmo de leitura,

    Curtido por 1 pessoa

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