O Grande Abismo de C.S.Lewis #80

Não é possível levar conosco toda a nossa bagagem em todas as jornadas.

Nenhuma outra leitura que eu tenha feito de C.S.Lewis me preparou para essa. O Grande Abismo, um sonho é um livro extraordinário como os outros (ficção e não ficção do autor, misturo tudo em minha mente agora), mas ainda mais extraordinário que os outros.

Li esse livro para uma leitura coletiva. É totalmente possível que o livro tenha sido tão impactante para mim justamente por esse detalhe. Compartilhar experiências de leitura, conversar sobre literatura, conversar sobre a vida a partir da literatura… Estão entre as atividades mais prazerosas para qualquer leitor. 

Vamos ao enredo. Um homem (que não deixei de imaginar o tempo todo que fosse o próprio Lewis) chega a uma cidade, mais precisamente a um ponto de ônibus. O tipo de início de livro em que o primeiro parágrafo já é suficiente para imergir totalmente o leitor na narrativa pela familiaridade com o que é narrado. Uma cidade cinza, um ponto de ônibus, a fila. O que se segue é a observação do protagonista e portanto a nossa, das pessoas que estão ali. Lewis parte de algo simples, pequeno… e pouco a pouco vai construindo algo bem maior e complexo.

Importante ressaltar que já somos inseridos ao que veio essa alegoria no prefácio. O grande abismo entre o céu e o inferno, entre o bem e o mal. Nas palavras do autor: “Não estamos vivendo em um mundo onde todas as estradas são raios de um círculo e onde todas, se seguidas suficientemente, acabarão por se aproximar gradualmente e terminar se encontrando no centro. Pelo contrário, estamos num mundo em que cada estrada, depois de alguns quilômetros, se divide em duas, e cada uma destas mais uma vez em duas, e em cada encruzilhada você tem de tomar uma decisão.” […] “Penso que se for escolhida a terra em vez do Céu, ela irá mostrar ter sido, todo o tempo, apenas uma região no Inferno: e a terra, se colocada em sujeição ao Céu, terá sido desde o início uma parte do próprio Céu.” 

Não sendo difícil assim deduzir o significado da cidade, o destino do ônibus e tudo o mais que nos é apresentado. 

O capítulo 9 em minha opinião é o mais importante da obra, onde ouvimos muitas das opiniões do autor sobre os assuntos em questão. É o capítulo também onde aparece a figura do George Mac Donald [1] como personagem, responsável por diálogos incríveis.

O que torna esse livro inesquecível é de fato cumprir o proposto: mostrar o grande divórcio, o grande abismo que há entre o céu e o inferno. Inclusive, coincidência ou não, essa semana enquanto rascunhava essa resenha fiquei sabendo do lançamento de uma nova edição dessa obra pela Thomas Nelson Brasil, no título “O Grande Divórcio”, uma tradução mais próxima do título original. O que Lewis fez aqui, é mostrar a grande e definitiva separação que há entre os dois destinos finais e mais, a separação entre os dois caminhos que começam aqui na terra: a jornada dos salvos e não salvos. Que em resumo nada mais é do que uma questão do coração. O que acontece é que alcançados pela Graça de Jesus Cristo, os salvos, progressivamente amam a Jesus acima da própria vida – “Não amaram a própria vida nem mesmo diante da morte.” (Apocalipse 12:11) -, e qualquer coisa diferente disso é um amor progressivo e furioso por si mesmo, e esse muitas vezes, como demonstrado através de algumas personagens do livro, camuflado até pela própria religiosidade.

Como já mencionei O Grande Abismo começa pequeno e termina imenso. A necessidade de releitura é imediata ao final da leitura. Um livro em minha opinião perfeito se não fosse a ideia do purgatório e outros pontos que pela polêmica não valem citar. Mas já que citei o purgatório… Bem, sei que se trata de uma fantasia, e o próprio Lewis disse no prefácio: “Peço aos leitores que lembrem tratar-se de uma fantasia…” Todavia é verdade, não deixou de me incomodar um pouco rs.

É possível que eu tenha sido mais passional aqui que em outras resenhas, mas essa acaba sendo a graça de comentários sobre livros. 

Até mais!

[1] George Mac Donald foi um escritor, poeta e ministro cristão, nascido em 1824 no Reino Unido e falecido em 1905.


+INFO LIVRO: O Grande Abismo, um sonho | Autor: C.S.Lewis (1898-1963) | Publicado originalmente em 1945 | Editora Vida, 2006 | 152 páginas

Classificação: 4,5/5 | Skoob

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