Elas controlavam a enfermagem e isso foi um problema

Primeira guerra mundial. O presidente dos Estados Unidos, Woodrow Wilson, finalmente cedera a pressão para que o país entrasse na guerra. A Cruz Vermelha Americana, uma instituição quase pública, apontada oficialmente pelo Congresso para servir a nação em tempos de emergência, se aproximou ainda mais do governo. A instituição faria todos os esforços para ajudar os aliados; buscaria fazer nada mais nada menos do que coordenar a generosidade e o esforço do povo americano para a realização de um objetivo supremo.

Não havia organização mais patriótica. A Cruz Vermelha Americana era responsável por fornecer enfermeiras, milhares delas, ao serviço militar. Em 1918, a organização contava com 30 milhões de americanos como apoiadores ativos. Oito milhões de americanos servindo nas representações locais[1]. As mulheres eram quase o total dessa enorme força de trabalho voluntária.

Conforme a guerra avançava mais os militares precisavam de enfermeiras. Como a medicina, a enfermagem mudou radicalmente no final do século XIX, tornando-se mais científica. Mas as mudanças nessa área envolviam fatores que iam além desse aspecto: incluíam status, poder e o papel da mulher. A enfermagem foi um dos poucos campos que deram oportunidade e “status” às mulheres e que elas controlavam.

Para se ter uma ideia, em 1912 já era previsto que diante de uma guerra, o exército precisaria de um grande número de enfermeiras, mais do que provavelmente haveria disponível. No entanto, acreditava-se, isso é muitos oficiais homens acreditavam, que nem todas precisavam de treinamento completo e por isso queriam criar um corpo de “enfermeiras práticas”, sem a formação e o treinamento das “enfermeiras graduadas”. Porém, as mulheres à frente dessa profissão não aceitaram isso. Jane Delano[2] que já havia ensinado e chefiado o Corpo de Enfermeiras do Exército e que agora tinha um programa de enfermagem estabelecido na Cruz Vermelha, ameaçou se desligar da organização e levar todas as integrantes do programa com ela. Resultado: não foi iniciado nenhum treinamento para auxiliares de enfermagem.

Quando os EUA entraram na guerra, apesar de contar com um número grande de enfermeiras graduadas e cujo o treinamento provavelmente até excedia o de alguns médicos, esse número não era suficiente. A guerra rapidamente sugou essas profissionais. Jane Delano e as demais mulheres influentes na área da enfermagem só voltaram atrás quando começaram chegar as informações sobre o desespero nos hospitais de campanha. Mesmo assim, contando com a rejeição de muitas colegas de profissão que se recusaram a participar da organização de qualquer programa de treinamento de auxiliares de enfermagem e concordando apenas em criar uma escola de enfermagem do exército.

A enfermagem, as mulheres da enfermagem, triunfaram sobre a Cruz Vermelha e o exército americano, um exército em guerra. Uma vitória só aplaudida quando as mesmas resolveram ter o bom senso de voltar atrás.

Referências:

[1] BARRY, John M. A Grande Gripe: a história da gripe espanhola, a pandemia mais mortal de todos os tempos. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020 – Publicado originalmente em 2004

[2] Jane Delano. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Jane_Delano

Imagem Cabeçalho: Pinterest


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