Perdão versus desculpas (Um ano com C.S.Lewis)

TENHO a impressão de que quando acho que estou pedindo que Deus me perdoe estou muitas vezes (a menos que eu cuide bastante) pedindo que ele faça algo muito diferente. Não estou pedindo que me perdoe, mas que me desculpe. Porém, existe uma enorme diferença entre perdoar e desculpar. Perdoar significa dizer: “Sim, é verdade que você cometeu tal coisa, mas eu aceito o seu pedido de perdão. Eu jamais o cobrarei de você, e tudo entre nós continuará sendo exatamente como antes”. Porém, quando desculpamos alguém, estamos dizendo: “Vejo que você não teve como evitá-lo ou não quis fazer isso, e não foi realmente culpa sua”. Se não houve culpa real, não há nada a desculpar. Nesse sentido, a desculpa e o perdão são quase opostos. É claro que, em dezenas de casos, seja entre Deus e o homem, seja entre uma pessoa e outra, as coisas muitas vezes se sobrepõem. Parte do que parecia ser pecado à primeira vista, revela-se como não sendo culpa de ninguém e é desculpado; o restinho que sobra é perdoado. […] Contudo, o que muitas vezes chamamos de “pedir perdão a Deus” não passa, na verdade, de pedir que ele aceite nossas desculpas. O que nos induz a esse erro é o fato de que normalmente existe certo arsenal de desculpas, ou seja, de “circunstâncias”. Ficamos tão ansiosos em apresentá-las diante de Deus (e de nós mesmos) que somos capazes de esquecer a coisa mais importante, isto é, o que restou: o montante que as desculpas não são capazes de cobrir, o restinho que é indesculpável, mas, graças a Deus, não imperdoável. Quando nos esquecemos disso, vamos embora achando que nos arrependemos e fomos perdoados, quando, na verdade, tudo o que fizemos foi dar satisfações a nós mesmos com as nossas próprias desculpas. É possível até que sejam desculpas esfarrapadas; ficamos facilmente satisfeitos com nós mesmos.”


Do livro: LEWIS, C.S. Um ano com C.S.Lewis, Editora Ultimato, 2005, pg 271 (Leitura diária 29 de Agosto, da O peso da Glória)

Transformados (Um ano com C.S.Lewis)

“PARECE que está na hora de pegar emprestado outra parábola de George MacDonald. Imagine-se como uma casa. Deus entra em cena para fazer uma reforma nesta casa. No começo, talvez você até entenda o que ele está fazendo. Ele está concertando os ralos entupidos, as goteiras no teto e assim por diante; você sabia que esses serviços tinham mesmo de ser feitos e, por isso, não fica nada surpreso. Mas, no momento em que ele começa a martelar por toda a casa, de forma incrivelmente dolorosa, as coisas já não parecem mais fazer sentido. O que Deus está pretendendo afinal? A explicação é que ele está construindo um prédio bem diferente do que você tinha imaginado – jogando fora uma ala inteira aqui, colocando um novo andar ali, levantando torres, instalando jardins. Você imaginava que seria transformado num casebre; mas, na verdade, ele está construindo um palácio. E ele pretende vir morar nesse palácio. O mandamento sede perfeitos  não é um idealismo barato. Tampouco se trata de um mandamento para fazermos o impossível. Ele nos transformará em criaturas capazes de ouvir e obedecer aos seus mandamentos. Deus diz (na Bíblia) que somos “divinos” e ele fará suas palavras se cumprirem. Se nós, o deixarmos fazer isso – pois poderemos impedi-lo se preferirmos -, ele transformará as débeis e asquerosas pessoas que somos em criaturas divinas, deslumbrantes, radiantes, imortais com tanta energia, alegria, sabedoria e amor pulsando por todo o corpo, que não podemos sequer imaginar. [Seremos transformados] em espelhos claros e imaculados que refletem perfeitamente (embora, é claro, numa escala menor), o próprio poder limitado, o prazer e a bondade de Deus. O processo será longo e, em parte, bastante dolorido, mas é para isso que fomos criados. Para nada menos. O que Cristo disse é para valer!”


Do livro: LEWIS, C.S. Um ano com C.S.Lewis, Editora Ultimato, 2005, pg 226, (Leitura diária 18 de julho, da Obra Cristianismo Puro e Simples)