Resenha livro: Tremor de Jonathan Franzen

Compreender o que chamo de caos do mundo contemporâneo, discernir a realidade do que estamos vivendo (em sociedade). Acho importante ler sobre o que as pessoas estão pensando sobre o aqui e o agora. Tudo hoje parece tão – como conceituou Bauman – líquido, relativo, rápido e imediato… que, está cada vez mais difícil assimilar a realidade de fato. Nesse intuito, tenho percebido a força da literatura de ficção em expressar através do imaginário (e absurdo as vezes) o que há de mais real no nosso mundo. É assim que cheguei a leitura do livro de hoje.

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Sabe, todo dia eu leio algum texto que fala sobre como a vida das mulheres é dura…

Ele fechou a Bíblia e se recostou em sua cadeira. “Sabe, todo dia eu leio algum texto que fala sobre como a vida das mulheres é dura na sociedade de hoje. Sobre como elas têm que fazer uma porção de escolhas difíceis, sobre todas as responsabilidades que elas têm que assumir com relação a suas famílias. Elas têm que ser mães e têm que trabalhar como homens também, se é para a sociedade liberal funcionar.

“Não são só as mulheres”, disse Renée. “Os homens também têm que mudar.”

“Ah, sim, supostamente é assim que funciona. Só que a gente não ouve falar tanto sobre homens que se queixam e homens que se sentem num beco sem saída, ouve? Os homens ainda têm a possibilidade de escolha, certo? Eles podem se realizar profissionalmente e, se quiserem, podem se realizar como pais. É como se a vida estivesse melhorando para os homens, eles estão tendo opções num sentido positivo, enquanto as mulheres estão tendo todas essas opções extras num sentido negativo. Você não acha que isso é o grande paradoxo da nossa era? Que quanto mais as coisas melhoram para as mulheres no sentido político-liberal, piores as coisas ficam para elas na realidade?”


Do livro: Jonathan Franzen. Tremor (Strong Motion, 1992). Companhia das Letras, 2012, 552 páginas